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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Burnout não consta, especificamente, no CID-10

CID10

A Síndrome de Burnout não pode ser diagnósticada clinicamente, pois tal doença ainda não consta especificamente no Código Internacional de Doenças (CID-10) segundo relata a dra Isabela Vieira, médica psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ). o burnout atualmente está enuqdrado de forma genérica sob o código Z73.0 como problema que leva o paciente ao contato com o serviço de saúde.


Freudenberger, em 1974, descreveu o burnout como um “incêndio interno” resultante da tensão produzida pela vida moderna, afetando negativamente a relação subjetiva com o trabalho. Segundo Maslach et al.18, o burnout é uma síndrome psicológica resultante de estressores interpessoais crônicos no trabalho e caracteriza-se por: exaustão emocional, despersonalização (ou ceticismo) e diminuição da realização pessoal (ou eficácia profissional). A exaustão emocional (EE) caracteriza-se por fadiga intensa, falta de forças para enfrentar o dia de trabalho e sensação de estar sendo exigido além de seus limites emocionais. A despersonalização (DE) caracteriza-se por distanciamento emocional e indiferença em relação ao trabalho ou aos usuários do serviço. A diminuição da realização pessoal (RP) se expressa como falta de perspectivas para o futuro, frustração e sentimentos de incompetência e fracasso. Também são comuns sintomas como insônia, ansiedade, dificuldade de concentração, alterações de apetite, irritabilidade e desânimo.


RELATO DE CASOS

A., 50 anos, casado, técnico em telecomunicações, funcionário de empresa de telefonia há 28 anos. Seus problemas começaram em 1996, com sucessivas mudanças administrativas: foi transferido de unidade duas vezes e assumiu, sem consulta prévia, posto de gerência, aumentando suas atribuições, enquanto reduzia-se o efetivo de pessoal. Suas novas tarefas incluíam a demissão de funcionários. Para aprender o novo serviço, passou a trabalhar até mais tarde nos fins de semana. Começou a sentir-se muito cansado fisicamente, ansioso, tenso e insone. Após a privatização da empresa, instalou-se o processo de reestruturação produtiva, com demissões em massa e expansão dos serviços. Os novos contratados não estavam suficientemente qualificados para as funções, exigindo maior esforço na tarefa de supervisão. Havia sucessivas “mudanças de diretriz” (“mandavam a gente fazer tudo de um jeito, e no dia seguinte não era mais nada daquilo, o trabalho era jogado fora”), além das ameaças de demissão, da desmoralização dos funcionários e das exigências cada vez maiores de rendimento (“quando a meta não era alcançada, era porque éramos incompetentes; quando se conseguia, deveríamos ter nos esforçado mais para superá-la”). Além do cansaço físico, sentia-se exigido além do seu limite emocional. Pensar em trabalho deixava-o irritado e impaciente, ao contrário do que sempre foi (considerava-o como prioridade, fonte de satisfação pessoal e orgulho). Passou a apresentar, além da ansiedade, tristeza profunda, falta de prazer nas atividades, dificuldade em tomar decisões, perda de apetite e de peso (cerca de 14 kg em 7 meses), “brancos” de memória, desesperança, sentimento de desvalorização pessoal e vontade de morrer. Foi, então, afastado de suas atividades laborativas, e iniciou tratamento psiquiátrico em 2000. A. fez uso de diversas medicações até que se aposentou, um ano após o diagnóstico do burnout.


Outro caso é o da professora Cibele. Ela sabia que alguma coisa de anormal estava acontecendo. As atividades que antes lhe davam prazer, de uns tempos para cá, estava esvaindo sua energia e ela se sentia mais cansada e desanimada do que o habitual. E, em alguns momentos, até angustiada com a perspectiva de entrar em sala de aula, enfrentar os alunos e fazer o que ela sempre soube fazer: educar. Professora há 28 anos, sempre foi dedicada e ativa, mas, começou a achar que não dava mais conta das obrigações, “que o tempo não dava para cumprir as tarefas”, recorda-se.


Antônia Cibele Figueiredo Ligório não sabia, mas ela fazia parte de uma estatística que vem preocupando a área educacional, e sendo pesquisada por especialistas do mundo todo: educadores vítimas do burnout. Um tipo de síndrome que, segundo pesquisa realizada pelo Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília, UnB, afeta 30% dos professores em todo o País. O levantamento, que ouviu 52 mil professores, funcionários e especialistas em educação de 1.440 escolas públicas, foi feita em conjunto com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Cibele tinha vergonha de seus sintomas e de ter que recorrer a atestados para tratar-se. “Eu queria que alguém me compreendesse e não tinha. O meio, por incrível que pareça, reage de forma hostil e minha tendência foi isolar-me dos meus colegas de trabalho”, conta. Afastada há dois anos de suas atividades profissionais, Cibele não tem diagnosticado o motivo de seu afastamento. “Os médicos não querem me dizer. A minha psicóloga diz que saber não é bom para mim”. Apesar de reconhecida desde 1999, são raros no Brasil os casos de profissionais afastados do trabalho por causa da síndrome de burnout.´


Pesquisa realizada em 2004, em dez estados brasileiros, pela CNTE, revelou que 30,4% dos professores e funcionários de escolas tiveram ou têm problemas de saúde, sendo que 22,6% necessitaram de licenças, afastando-se temporária ou definitivamente do trabalho. As principais enfermidades relacionadas ao trabalho e apontadas pela pesquisa são doenças psiquiátricas e neurológicas, calos nas cordas vocais, problemas cardíacos e de coluna, varizes e alergias ao giz.


Para saber mais sobre as características do burnout, bem como os sintomas mais comuns, às vezes confundidos com estresse ou depressão e até síndrome do pânico, assista a palestra com Chafic Jbeili que será realizada dia 29 de maio no auditório do Centro Acadêmico IMPAR.


Mais informações no site www.chafic.com.br

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